04/12/12

... Tu és escritor?



[…Levantei a cabeça do meu caderno e do meu café, meio frio e meio vazio, a tempo de ouvir a pergunta que o Cisne me fazia. Parada, com as mãos apoiadas nas costas da cadeira à minha frente, perguntava-me, não pela primeira vez:
–– Tu és escritor?
Devo ter feito uma expressão de pasmo devido ao ineditismo da situação, pois nunca ninguém me dirigia a palavra. Talvez por isso, sorriu e repetiu:
–– Mais uma vez te pergunto se és escritor.
Foi a minha vez de sorrir e, mastigando lentamente a pergunta que me fazia, acabei por responder:
–– Sou. Porque escrevo.
Deu uma ligeira gargalhada e, sem qualquer convite ou anuência da minha parte, acabou por desviar a cadeira e sentar-se.
–– Não faz mal. Também há quem diga que sou um ser humano porque falo. E que escreves tu quando estás para aí com a caneta zuca, zuca, zuca? – e fazia o gesto de escrever, com a mão direita.
De certo modo grato pela quebra de rotina, recostei-me na minha cadeira e falei, com agrado, para aqueles olhos:
–– Oh! Coisas simples, triviais, conforme vou imaginando. Episódios da minha vida, do que me rodeia, às vezes até do que sonho acordado. Embora aí o resultado ande mais pela ficção científica…]

In "O Canto do Cisne" de João J. A. Madeira 


1 comentário:

  1. ... e porque és escritor?

    Não vês quão banal é o acto de escrever?
    Hoje, sabes?, toda a gente escreve.
    Sobre isto e sobre aquilo.
    Sobre tudo e sobre nada.
    E, sobretudo, todos acham que têm algo a dizer. Que nunca terá sido dito. Ou, então, dizê-lo de maneira diversa.

    Tu... porque também tão bem escreves?

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